PEDRA DO DISCO

02/10/2020 6 anos atrás

Pedra do Disco: Inscrição destruída ainda é importante

A inscrição na Pedra do Disco registrando o que pode ter sido o avistamento um disco voador em tempos remotos foi destruída na década de 2.000. Mas para pesquisadores, ainda assim, sua reprodução guarda grande importância como um notável registro

Por Redação

Imagem reconstituída mostra o painel de rocha monazítica natural onde se encontravam as pinturas na disposição original, antes de serem pichadas na década de 2000.

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Destruição de um patrimônio histórico

Localizado no Sul do Estado de Minas Gerais, o município de São Tomé das Letras recebe um forte turismo de todo o país e várias partes do mundo, impulsionado por suas belezas naturais e um ar de misticismo na montanha situada a mais de 1.400 metros de altitude.

A localidade que possui vários pontos turísticos naturais, alguns contendo antigas inscrições, apresenta também um repertório de lendas, avistamentos ufológicos e histórias fantásticas.

Há locais recheados de histórias, lendas, e personagens míticos e únicos. E um desses pontos enigmáticos, sem dúvida, é a chamada Pedra do Disco, que infelizmente teve sua preciosa arte rupestre danificada por um ato de extrema ignorância.

Este local foi revelado por Oriental Luiz Noronha, falecido em 2018 e mais conhecido como Tatá, seu principal pesquisador e descobridor da pintura rupestre em tempos atuais. Oriental foi um historiador, ufólogo e pesquisador da história local e, felizmente, pôde fazer vários registros e uma reprodução fiel da inscrição na Pedra do Disco, antes que esta fosse depredada.

Em seu livro, “São Thomé das Letras e o mundo subterrâneo”, Oriental, apresenta vários aspectos da cidade, incluindo alguns de seus mistérios.

Nesta obra, ele aborda também sobre a Pedra do Disco, situada no Morro do Areado, bairro Cantagalo, a aproximadamente seis quilômetros do centro da cidade. O local é um mirante voltado ao leste, de onde pode-se ver o nascer da Lua, do Sol, e demais astros.

Por se tratar de um lugar de interesse arqueológico, este mirante está cadastrado no IPHAN como “Pedra da Nave”. Conforme Oriental Luiz Noronha, acredita-se que a pintura hoje destruída tenha sido feita pelos índios Cataguases que habitavam a região há séculos. Segundo o mesmo autor, estudos arqueológicos datam a pintura de 2.000 a 5.000 anos atrás.

O painel de rocha monazítica situado à beira da estrada que liga São Tomé das Letras a Cruzília.

Maurício Kairuz: quando a ignorância destrói

O pesquisador independente e explorador paulista Mauricio Kairuz falou exclusivamente conosco sobre a Pedra do Disco e lamenta a dilapidação da inscrição, “antes mesmo que ela pudesse ser devidamente estudada”, afirmou. Kairuz é também pesquisador da Pedra do Disco e, como explorador, se trata de um profundo conhecedor da região que compreende os municípios de São Tomé das Letras e Luminárias, berço de tocas, grutas e cavernas que ainda guardam segredos não revelados, dos quais, alguns, ele pôde ver de perto por algumas ocasiões.

Segundo Kairuz, “Até meados da década de 2.000, a pintura rupestre da Pedra do Disco, embora bem desgastada devido às intempéries, ainda podia ser visualizada no painel quartizítico natural, localizado atrás do mirante, na beira da estrada que liga São Tomé à vizinha Cruzília”, afirmou Mauricio Kairuz.

No local, devido a posição geográfica e a vista privilegiada do vale, foi montado uma espécie de mirante para observações astronômicas e vigílias ufológicas. A pintura feita num painel de pedra está voltada para a direção Leste, localizada atrás desse mirante, no outro lado da estrada.

O número de um candidato a vereador foi pichado sobre a inscrição, cujos detalhes do que ainda restava podem ser vistos ao fundo na cor avermelhada.

De acordo com Mauricio Kairuz, “O fato mais lamentável relativo a esta pintura ocorreu a partir dos anos de 2000, e foi primeiramente a incompreensão de seu valor arqueológico pela comunidade, somada a falta de ação do Poder Público em zelar por este patrimônio. Até mesmo no sentido de informar à população local do que se tratava”.

E o explorador paulista nos explica, então, como se deu a destruição da pintura rupestre, “Devido a boa visibilidade do painel quartizítico nas margens da estrada para Cruzília, foi impressa sobre ela, uma propaganda eleitoral com o número de um candidato a vereador às eleições locais naquela época. Fato este confirmado pelo próprio autor do vandalismo, conforme informou Oriental Luiz Noronha”, disse Kairuz.

Ele também aponta que, “De acordo com as informações de Oriental Noronha, o cidadão que praticou o ato de vandalismo o teria feito por ignorância, pois teria ficado bastante arrependido quando tomou conhecimento sobre a importância da pintura que destruiu. Daí se torna de suma importância que o Poder Público zele e oriente a população no sentido de preservar seus valores históricos e arqueológicos”.

Maurício Kairuz nos explica que, “A interpretação desta arte rupestre, segundo Oriental Noronha, é que o homem primitivo representou aquilo que viu. Aquele determinado objeto com aquelas características, voava como o tucano e alcançava as estrelas (representada ao lado esquerdo acima da nave em amarelo) e sua atitude de voo se dava próxima ao solo e de forma tortuosa como a cobra. Duas cores foram utilizadas, sendo a vermelha para as figuras e curiosamente a amarela representando fogo ou luz nas partes do objeto como nos bocais inferiores e na cúpula”, observou.

O explorador nos informa também que, “Atualmente a pintura da Pedra do Disco foi totalmente suprimida por mais um ato de vandalismo, mas que de maneira alguma poderá apagá-la na história local. Tamanho mistério muito ainda precisa ser estudado. O valor deste patrimônio histórico é de difícil entendimento por uma parcela da população que o trata com desdém e, por vezes, com vandalismo, como infelizmente ocorreu”, finalizou Maurício Kairuz.

Reconstituição feita por Maurício Kairuz mostra a disposição das imagens na extinta pintura.

J.A. Fonseca: a importância de um registro destruído

O pesquisador arqueológico mineiro J.A. Fonseca, autor de várias pesquisas, reportagens e livros sobre o Brasil Antigo também falou conosco sobre a Pedra do Disco. Por décadas ele tem visitado inúmeros sítios arqueológicos em todas as regiões do Brasil, é autor de seis livros, incluindo o mais recente em e-book, “Beleza e Mistérios no Vale do Peruaçu”, onde mostra imagens e aborda sobre inscrições rupestres no Vale do Peruaçu, rica região arqueológica no Norte de Minas. Fonseca é também considerado um profundo conhecedor da simbologia do Brasil Antigo, tendo pesquisado e reproduzido inúmeras inscrições rupestres.

Falando conosco, ele nos diz que, “Visitei São Tomé duas vezes. A primeira foi em 1982, quando residia em Pouso Alegre e estive lá por saber das inscrições no centro da cidade e do Pico do Leão, além dos comentários que corriam na época sobre os mistérios da região. No ano de 1999 decidi retornar à cidade com o objetivo de andar por outros lugares, quando registrei as ‘letras’ da gruta de São Tomé, visitei algumas cachoeiras, a gruta do Carimbado e Shangrilá, onde também existem inscrições rupestres”, disse.

“Somente alguns anos mais tarde, após adquirir o livro de Oriental Luiz Noronha ‘São Thomé das Letras e o Mundo Subterrâneo’ é que vim saber que a região é mesmo recheada de muitos mistérios e de outros registros arqueológicos relevantes. Mas apesar de seu livro trazer inúmeros registros de seus arredores, neste caso iremos focalizar especialmente as figuras enigmáticas encontradas no Morro do Areado, que foram comentadas por ele e documentadas mediante um desenho deste conjunto, cuja pintura original está hoje totalmente destruída”, lamenta.

Reprodução da pintura feita por Oriental Noronha em seu livro.

Para Fonseca, “As figuras deste desenho mostram algo perturbador que desperta em nós uma ideia contraditória e conflitante, por causa da sua provável longevidade e do que ela poderia representar sob a ótica do observador moderno. A figura central é constituída de um objeto estranho que foi chamado pelo próprio Oriental Noronha de ‘disco voador’ devido ao seu formato arredondado e semelhante ao que vem sendo visto e registrado nos dias atuais nos céus do planeta, tem também uma cruz, uma figura parecida com uma ave (tucano) e outra como uma serpente em movimento, pintados nas cores vermelha e amarela. Como podemos ver, se trata de algo inusitado e seu conteúdo, de caráter abstrato e complexo, leva-nos a pensar que seu autor ou autores pretenderam registrar algo que teriam presenciado, associando tal coisa com elementos da natureza que eles tão bem conheciam”, afirmou.

Segundo Fonseca, “Oriental Noronha, que fez pesquisas em diversos lugares, disse em seu livro que o desbravador Lourenço Taques teria encontrado em São Tomé diversas inscrições já naquela época e afirmava que os índios Cataguases as atribuíam a Sumé, uma divindade indígena. Disse também que os arqueólogos internacionais não davam importância às inscrições rupestres brasileiras e diziam que estas gravações do Brasil eram apenas brincadeiras feitas pelos selvagens. É estranho que estudiosos falem de coisas que não viram nem se deram ao luxo de estudar adequadamente. Que tipos de brincadeiras seriam estas, pensamos nós, que carregam tão elevado grau de expressividade e conteúdo excessivamente simbólico e enigmático, para não serem consideradas por estes pesquisadores? Para Oriental Noronha, no entanto, se tratavam de coisas bem mais antigas, pois os próprios silvícolas atribuíam-lhes conotações mágicas, por causa de seu conteúdo desconhecido e de sua origem misteriosa”, pontuou Fonseca.

Sobre o conteúdo da imagem, afirma o pesquisador, “Diante do que ali se acha gravado, poderíamos, talvez, reduzir o impacto de sua presença, em local tão pouco provável, se procurássemos vê-la apenas sob o olhar meramente intelectivo e superficial. Porém, não poderíamos recusar-lhe uma análise mais acurada, mesmo que não o queiramos fazer, por se tratar de um registro de caráter histórico, cujo conteúdo exige uma explicação sensata, não pode ser afastada de seu sentido real, mesmo que ele seja difícil de ser digerido pelo convencionalismo do mundo moderno. Achamos importante observar que se este conjunto de figuras tivesse sido notado a cerca de um século atrás, não haveria de despertar surpresa nem interesse em seus prováveis observadores, por admitirem que a sua feitura viesse ter mesmo relação com os povos selvagens que viviam no local. Nos dias de hoje, entretanto, com o aprofundamento dos estudos no âmbito da arqueologia e com a democratização do conhecimento por meio de inúmeros instrumentos de informação, a sua presença se torna mais inquietante. A popularização dos chamados ‘discos voadores’ passou a colocá-los em destaque em muitos dos aspectos da vida na Terra e estes passaram a ser notados em muitos lugares e até mesmo em registros históricos de povos mais antigos. Assim, a figura central do painel do Morro do Areado despertou a sua relevância neste sentido, por se aproximar excepcionalmente da figura de um destes objetos voadores que é visto nos céus”, declara o pesquisador.

Acima, o que ainda restava da imagem original mostrando o "disco" antes de ser destruída. No detalhe pode-se ver o que havia restado do tucano, em vermelho.

Sobre a origem da inscrição, Fonseca observa que, “Em seu livro, o autor Oriental Noronha questiona se estas figuras não poderiam estar relacionadas a povos muito antigos do Brasil, ligados a uma determinada civilização perdida e ignorada pela história. Afirma ainda que, curiosamente, seus autores utilizaram de duas cores na elaboração deste painel, a vermelha e a amarela, sendo que na maioria dos casos, na região de São Tomé, fora utilizada somente a cor vermelha. Considerando-se as observações de Noronha diremos que estas figuras, hoje destruídas, venham tratar-se mesmo de algo mais complexo à realidade brasileira que é admitida pelos pesquisadores: a de que nossos antepassados se constituem apenas de indígenas que viviam de forma muito natural, baseando sua vida basicamente em caça e pesca, plantio de alguns poucos alimentos, colheita de frutos e uso da madeira em suas construções”.

Oriental Luiz Noronha (Tatá), o primeiro pesquisador da Pedra do Disco.

Vale lembrar que ao longo de seu trabalho arqueológico, J.A. Fonseca tem observado que a pintura e trabalhos feitos com pedras não são características atribuídas às culturas indígenas. Sobre isso, comenta o pesquisador, “Se quisermos atribuir a grupos como estes a elaboração de um ‘trabalho’ desta natureza, como tantos outros que já tivemos a oportunidade de pesquisar, é querer demais ou simplesmente fechar os olhos e os sentidos para uma outra realidade que não se quer admitir. Em verdade temos diante de nós uma grande quantidade de registros históricos, que aos borbotões e ainda inexplicados sob a ótica da normalidade acadêmica, nos desafiam para que possamos vê-los com maior autenticidade e coragem”.

E assim, Fonseca propõe uma espécie de “revisão” aos muitos registros arqueológicos deixados por todo o território brasileiro, “Nossa visão neste caso e em relação a muitos outros no Brasil, se volta para uma era mais distante e procura encontrar ali uma explicação para estas coisas que não podemos entender agora. O que não se pode negar é que um registro como este do Morro do Areado venha se tratar de algo forte demais para a percepção comum de nosso tempo e que seu conteúdo poderia estar ligado a uma experiência real, vivida por seu autor ou autores, anexando-se a ela, elementos da natureza para, quem sabe, amenizar o impacto de uma visão incompreensível”, propõe o pesquisador.

Fonseca também observa sobre a expressão do registro, “A questão que muitas vezes se levanta é que figuras como estas, que possam expressar algo que ‘não poderia existir’, pertence muito mais à negação de nossa própria mente, excessivamente analítica, do que a uma realidade passível de existir. Porque deixamos de considerar que em nosso próprio planeta existem ainda pessoas e regiões que vivem à margem do conhecimento tecnológico de muitos grandes centros. E que existem ainda tribos de silvícolas na Amazônia que não fizeram, até o momento, contato com a chamada civilização. Para estes, qualquer coisa mais sofisticada seria algo parecido com magia”.

Comentou ele sobre a referida pintura, “Analisando a figura vemos que existe ali um objeto estranho em destaque e poderíamos dizer que ele se assemelha ao chamado ‘disco voador’. Isto é perceptível. Ao lado temos uma cruz e também figuras circulares dentro do objeto (um círculo dentro de outro), que se tratam de símbolos teogônicos. Poderiam se tratar de vigias da ‘máquina voadora’, dirão alguns. Próximo ao objeto pode-se ver uma sequência de riscos que poderiam indicar movimento e logo abaixo, no desenho original de Oriental Noronha, temos uma figura semelhante a uma serpente e uma espécie de ave em voo. Vemos assim, que se trata de um conjunto fortemente expressivo e que mesmo destruído, deixou na sua reprodução pelo livro de Noronha uma gigantesca interrogação. E mesmo que muitas pessoas não o queiram admitir, ele permanecerá como um estigma indelével e incontestável destacando-se na antiga história e nos mistérios do Brasil”, afirmou.

Ao fundo o painel onde estavam as pinturas e no detalhe o Mirante da Pedra do Disco.

Sobre a possibilidade de a pintura se tratar do registro de um avistamento ufológico, comenta o pesquisador, “Da mesma forma que eu não possuo elementos convincentes para explicar mais este enigma arqueológico brasileiro não poderia, ainda assim, ignorá-lo ou atribuir-lhe uma conotação extravagante apenas, como é comum acreditar-se. Sobretudo, por seus elementos constitutivos se mostrarem fortemente direcionados para a hipótese de que venha se tratar verdadeiramente de registro do avistamento de um ‘objeto voador não identificado’ em tempos bem remotos. É o que nos inspira a acreditar. Em verdade, este registro vem confirmar com êxito a existência de uma galeria extensa de temas que são excluídos de nossa história e que são ignorados por nossa descrença milenar, não admitindo que possa existir muito mais coisas sobre a face da Terra do que nossa inteligência venha perscrutar”.

Finalizando sua participação nesta matéria especial sobre a Pedra do Disco em São Tomé das Letras, J.A. Fonseca deixa suas impressões sobre a importância da inscrição registrada naquele local, ainda que tenha sido totalmente destruída, “Apesar de destruídas, as figuras do Morro do Areado se firmam como um marco simbólico do descaso e daquilo que precisa ser urgentemente transformado no contexto que envolve as pesquisas arqueológicas e históricas em nosso vasto e multifacetado país”, concluiu Fonseca.

Como vimos, a maioria dos pesquisadores é unânime em interpretar a extinta pintura da Pedra do Disco como um registro ufológico feito em tempos passados. Se o avistamento se deu naquele local ou não, jamais saberemos, embora isso vem justificar, também o nome dado àquele lugar.

* Pepe Chaves é jornalista e editor do diário digital Jornal São Tomé Online e da rede de portais ZINESFERA.

- Colaboraram: J.A. Fonseca e Maurício Kairuz.

- Imagens: Arquivos de Maurício Kairuz/Oriental Luiz Noronha/Jornal São Tomé Online.

- Produção: Pepe Chaves.

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