CULTURA

01/03/2024 2 anos atrás

A Revolta de Carrancas: Escravizados chacinaram seus senhores

O conflito ocorreu no interior de Minas Gerais porque escravizados nas fazendas de Carrancas se revoltaram contra a péssima condição de trabalho e a vida imposta a eles. Seis pessoas de uma família foram assassinadas e 17 escravos foram enforcados.

Por Pepe Chaves

O escravizado Ventura Mina foi considerado líder da revolta que matou membros de uma família e culminou no enforcamento dos revoltosos.

Terra, sangue e escravidão

Também conhecida como “Levante de Bela Cruz”, a Revolta de Carrancas foi uma das maiores insurreições de escravizados negros contra os seus senhores durante o Brasil imperial. Essa revolta ocorreu em 13 maio de 1833, numa área rural da região Sul de Minas Gerais, fazendo vítimas nas fazendas Campo Alegre e Bela Cruz, pertencentes à tradicional família Junqueira.

Estas propriedades que hoje integram o município de Cruzília pertenciam à vizinha freguesia de Carrancas na época do levante. As sedes dessas fazendas distam pouco mais de 1,5 légua uma da outra e em todas havia grande quantidade de trabalhadores escravizados.

O conflito teria ocorrido, segundo os registros históricos, porque os negros que trabalhavam nessas fazendas de Carrancas se revoltaram contra a péssima condição de vida e o excesso de trabalho impostos a eles por seus senhores.

Detalhe da fazenda escravagista Bela Cruz, situada entre São Tomé das Letras e Luminárias.

A revolta teve início

Buscando reverter este cenário, alguns escravizados planejaram um levante visando assassinar os proprietários das terras e suas famílias para se apossarem dessas propriedades. Planejaram invadir primeiramente as fazendas denominadas Campo Alegre [onde nasceu Gabriel Francisco Junqueira, o Barão de Alfenas], Bela Cruz, Bom Jardim, Campo Belo, Campo Formoso e Carneiros.

No total, a junta de escravizados comandada pelo líder negro Ventura Mina pretendia passar por cerca de 10 fazendas da região e depois se dirigir até as propriedades das famílias Andrade e Machado, que também pretendiam tomar.

Assim, em 13 de maio de 1833, a sede da fazenda Campo Alegre em Cruzília foi invadida pelos revoltosos que causaram no local as mortes das seguintes pessoas, o supervisor da fazenda, Gabriel Francisco de Andrade Junqueira, (filho do então parlamentar nacional Gabriel Francisco Junqueira, intitulado Barão de Alfenas), José Francisco Junqueira, Antônia Maria de Jesus, Ana Cândida da Costa, Manoel José da Costa, Emiliana Francisca Junqueira e Francisco da Costa. Todas as seis pessoas pertenciam à família Junqueira.

Invasão da Campo Alegre e assassinatos

De acordo com os historiadores, naquele dia, a fazenda Campo Alegre estava sob a responsabilidade do filho do deputado Gabriel Francisco de Andrade Junqueira que na ausência do pai conduzia todos negócios da fazenda, além de supervisionar o trabalho escravagista em suas terras. Naquele fatídico dia, seu pai se encontrava na Corte, cuidando de suas funções no parlamento nacional.

Antes do meio-dia, como de costume, Gabriel foi até a roça fiscalizar o trabalho de seus escravizados. Como sempre fazia, solicitou a um cativo da casa que arriasse o seu cavalo, montou-o e seguiu em direção à roça. Ao chegar, nada percebeu de estranho e, como sempre, encontrou os escravizados preparando a terra, cuidando das lavouras de milho e feijão, dentre outras.

A tranquilidade era apenas aparente. Sem condições de oferecer nenhuma reação, ainda montado em seu cavalo, Gabriel Francisco foi surpreendido por Ventura Mina, que o retirou à força de cima do animal e, juntamente, com os também escravizados Julião e Domingos, deram-lhe várias porretadas na cabeça, levando-o à morte alguns instantes depois.

Após este primeiro assassinato e ainda liderados por Ventura Mina, alguns desses escravizados que estavam trabalhando na roça formaram um grupo que seguiu em direção à sede da fazenda Campo Alegre, a qual pretendiam tomar e onde se encontravam outros familiares de Gabriel.

Além de Julião e Domingos, o grupo agora era bem maior e contava com a participação de Antônio Resende, João, Cabundá, André, Crioulo, José, dentre outros. Promoveram então uma chacina na sede da fazenda Campo Alegre, matando todos que se encontravam na casa, como nos narra a triste história.

Visando fazerem mais vítimas e se apossarem de mais uma fazenda, eles saíram de lá e seguiram rumo à fazenda Bela Cruz, situada cerca de uma légua e meia dali.

Gabriel, filho do Barão de Alfenas e administrador da Fazenda Campo Alegre foi arrancado de seu cavalo e morto por seus escravizados. IMAGEM ILUSTRATIVA: JSTO/gerada por IA.

Fazenda Bela Cruz também é atacada

Ao chegarem na roça da fazenda Bela Cruz, os insurgentes relataram aos escravizados de lá o que ocorrera na fazenda Campo Alegre, convocando-os a fazer o mesmo com os brancos dali. Recebendo mais adesões, à partir daquele momento, o grupo se ampliara bastante, ultrapassando o número de 30 cativos, que logo se dirigiu à sede da fazenda.

Os escravizados invadiram a casa grande da Bela Cruz, investindo diretamente contra o proprietário José Francisco Junqueira, sua mulher, Antônia Maria de Jesus, que se recolheram rapidamente e se trancaram num quarto. Mas nem por isso escaparam da violência dos cativos. O escravizado Antônio Retireiro, da Fazenda Bela Cruz, buscou um machado e o “entregou a Manoel das Vacas que trabalhou para arrombar a porta, enquanto aquele (…) trouxe uma pistola carregada saltando o muro, e foi arrombar a outra porta de trás”, nos narram os historiadores.

Crueldade e frieza nas invasões

Depois de arrombarem a porta do quarto, Antônio Retireiro, com a arma que tinha na mão, disparou na face de seu senhor, ficando mortalmente ferido e “ainda teve que sofrer muitos maiores tormentos, com sua mulher, filha e neta, os quais foram todos massacrados com inaudita crueldade dentro daquele quarto a olho de machado, tendo parte nesta incrível matança todos os escravizados vindos de Campo Alegre (…) e grande parte dos da Bela Cruz”.

Após esta segunda chacina, o grupo revoltoso agora maior, decidiu seguir para a fazenda Bom Jardim, visando fazer mais vítimas e ocupar esta terceira propriedade da família Junqueira.

No ataque à Bela Cruz houve mais mortes e os escravizados desta fazenda se juntaram ao grupo que seguiu para a Bom Jardim. IMAGEM ILUSTRATIVA: JSTO/gerada por IA.

Confronto em Bom Jardim derruba o levante

Contudo, o irmão do barão, João Cândido da Costa Junqueira, proprietário da fazenda Bom Jardim foi avisado da revolta por um escravizado da Campo Alegre de nome Francisco, leal do barão. Ao assistir à chacina em Campo Alegre, este escravizado pegou um cavalo escondido e rumou até a fazenda Bom Jardim, chegando ao local antes dos revoltosos e evitando assim, mais um massacre na família Junqueira.

Os Junqueira da fazenda Bom Jardim, após serem alertados pelo escravizado Francisco se precaveram fortemente contra a chegada do violento bando de Ventura Mina. Desta maneira, antes de os rebelados chegarem à fazenda Bom Jardim, o proprietário, João Cândido da Costa Junqueira, organizou uma resistência com funcionários e escravizados de sua confiança. Consta que ele trancou todos os seus demais escravizados na senzala e deu armas de fogo somente a dois deles de sua confiança, para que juntassem ao enfrentamento contra os inimigos.

Ao chegarem à fazenda Bom Jardim e buscarem um embate com seus moradores, o grupo foi surpreendido pelo fazendeiro. Ao adentrarem a propriedade, Ventura Mina foi morto a tiros pela resistência da fazenda, juntamente com outros quatro de seus homens.

Desta maneira, o confronto na fazenda Bom Jardim pôs fim à rebelião, culminando na morte de Ventura Mina e dos escravizados seus companheiros, João Inácio, Firmino, Matias e Antônio Cigano. A convocação da Guarda Nacional e o esquema repressivo que veio a seguir foram acionados logo após o último combate na fazenda Bom Jardim.

Ao chegarem à fazenda Bom Jardim o bando de Ventura mina foi surpreendido pelo irmão do barão, João Cândido da Costa Junqueira que usou armas de fogo em sua resistência. IMAGEM ILUSTRATIVA: JSTO/gerada por IA.

Julgados e condenados à forca

Após os atos de revolta, 17 escravizados foram julgados e condenados à pena máxima na época, morte por enforcamento. Eles foram acusados pelos crimes de insurreição e homicídio.

Naquele ano de 1833, o imperador D. Pedro II acabara de assumir o trono e ainda era menor de idade (seu pai se abdicou em 1831) e a Regência (provisória) é que promovia a ordem, além de executar as leis, investigações e penas. No total, foram denunciados criminalmente 31 escravizados nesse processo e 17 foram enforcados, além dos cinco mortos na fazenda Bom Jardim.

Problemática da escravidão em Minas Gerais

Alguns autores afirmam como causa desta rebelião a própria escravidão; especialmente, pelo péssimo tratamento e as pesadas tarefas que se impunham aos escravizados. Assim como os escravizados de outras províncias, naquela época, os da freguesia de Carrancas viviam em péssimas condições de vida e trabalho.

Eles lidavam com trabalho em excesso, castigos físicos, moradias inadequadas, má alimentação e falta de liberdade. Tudo isso gerou muita insatisfação e essa revolta entre os escravizados trabalhadores, levando-os a praticar atos extremos.

No período imperial, a movimentação dos escravizados de Minas Gerais mostra revoltas contra os seus senhores pelo excesso de trabalho compulsório. Homens e mulheres que foram escravizados lutaram pelo fim da exploração da sua força de trabalho e de suas vidas. A Revolta de Carracas é mais um exemplo de como a problemática da escravidão se mostrava cada vez mais complexa no Brasil do século 19.

Este mapa mostra a localização e a distância (média de 1,5 légua) entre as três fazendas atacadas (em vermelho) e a localização das cidades mais próximas: Cruzília, São Tomé das Letras, Luminárias e Carrancas.

Poder e riqueza da família Junqueira

As fazendas Campo Alegre e Bela Cruz na província de Minas Gerais onde esses escravizados viviam integravam uma grande extensão de terra concedida pela Coroa Portuguesa ao pai do Barão de Alfenas, João Francisco Junqueira, português de São Simão da Junqueira. Este chegou na Comarca do Rio das Mortes por volta de 1750 e deixou numerosa descendência, dando início à saga de uma grande família mineira, detentora de vastas propriedades e escravaria.

Na terceira década do século 19, as propriedades de seus filhos estavam entre as melhores e as mais bem equipadas, com grande escravaria para os padrões da época (entre 30 e até mais de 100 cativos), centenas de cabeças de gado, cavalos e porcos, além de comercializarem grande parte de sua produção na Corte (Rio de Janeiro).

A importância socioeconômica da família Junqueira também se refletiu no campo da política, pois um de seus membros, Gabriel Francisco Junqueira, que recebeu da Coroa o título de Barão de Alfenas (emprestando o seu nome à Praça da Matriz de São Tomé das Letras) tornou-se deputado geral da província de Minas Gerais por várias legislaturas seguidas ao longo da década de 1830.

Foi ele quem construiu e doou a igreja matriz à comunidade de São Tomé das Letras, o que levou a ser homenageado, tendo a praça da matriz da cidade adotando o seu nome. No cenário político nacional, o fazendeiro mineiro se destacou como um opositor à Coroa [veja matéria sobre o Barão de Alfenas em destaque nesse jornal] e precursor na criação de cavalos da raça Manga Larga no Brasil.

Gabriel Francisco Junqueira, o Barão de Alfenas. IMAGEM ILUSTRATIVA: JSTO/gerada por IA, com base em fotografia.

Escravidão, maus tratos e dor

Enquanto a família progredia, para os seus escravizados parecia que as coisas não tinham mudado muito, ou ao contrário, se tornavam cada vez piores. O vaivém de tropas entre Minas Gerais e Rio de Janeiro e o desenvolvimento das propriedades só fez aumentar o ritmo de trabalho. Era mais gado para cuidar, mais roças para plantar e os parcos recursos existentes para os escravizados se tornavam mais disputados, pois o número de cativos também crescia, exigência quase que natural para se tocar os negócios das fazendas.

Alguns deles exerciam a atividade de tropeiro e estabeleciam contato frequente com a Corte. Com isso ficavam sabendo, a seu modo, dos últimos acontecimentos do período das Regências, dos conflitos entre brasileiros e lusitanos e dos significados da liberdade, além de se tornarem responsáveis, não só pelo transporte de mercadorias, mas também pelas notícias e informações do seu interesse.

A fazenda Bela Cruz, tendo ao fundo o Pico do Gavião, na divisa de Luminárias com São Tomé das Letras. IMAGEM: Rildo Silveira.

Ecos que de um passado distante

Atualmente, sobraram da secular Revolta de Carrancas, as ruínas das fazendas Campo Alegre e Bom Jardim, abandonadas pela família Junqueira após as chacinas. A fazenda Bela Cruz [imagem acima] permanece preservada e pode ser vista por quem passa à beira da estrada que liga São Tomé das Letras a Luminárias.

Curiosamente, aquele distante e sangrento 13 de maio de 1833, viria mais tarde se contrastar com um outro 13 de maio, o de 1888, data em que a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, libertando os escravizados no Brasil.

Coincidência ou não, quis o destino que se passassem exatos 55 anos desde o dia em que os fazendeiros foram assassinados no interior de Minas Gerais até o dia em que a liberdade chegou definitivamente para todos os negros que viviam no Brasil.

* Pepe Chaves é jornalista e editor do Jornal São Tomé Online e da Zinesfera - Rede Mineira de Portais Integrados.

- Imagens:

Imagens ilustrativas: Criação JSTO, geradas por IA.

Rildo Silveira - Fazenda Bela Cruz.

Google Earth.

- Referências bibliográficas:

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Andrade, Marcos Ferreira de (Maio de 2017). As revoltas do Ano da Fumaça (1833): a revolta dos escravos de Carrancas e a sedição militar de Ouro Preto.

Andrade, Marcos Ferreira de. Negros rebeldes nas Minas Gerais: a revolta dos escravos de Carrancas (1833).

Teixeira, Paula Chaves (Maio de 2009). Negócios entre Mineiros e Cariocas: Famílias, estratégias e redes mercantis no caso Gervásio Pereira Alvim (1850-1880).

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Delfino, Leonara Lacerda (2015). O Rosário dos Irmãos Escravos e Libertos: Fronteiras, identidades e representações do viver e morrer na Diáspora Atlântica. Freguesia do Pilar - São João Del Rei (1782-1850).

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Mattos, José. Levante da Bela Cruz. Revista da ASBRAP.

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Faria, Sheila de Castro (Julho de 2006). Identidade e comunidade escrava: um ensaio. Revista Tempo.

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Magalhães, Adriano Aparecido (Abril de 2011). “Os Guerrilheiros do Liberalismo”: o juiz de paz e suas práticas no Termo de São João del-Rei, Comarca do Rio das Mortes (1827-1842).

Negros rebeldes nas Minas Gerais: a revolta dos escravos de Carrancas (1833).

Processo crime da Revolta de Carrancas.

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