CULTURA ♦ AUDIOVISUAL ♦ FICÇÃO ♦ VIDEOCLIPE
23/09/2026 1 mês atrás
Entrevista: Pepe Chaves – autor, diretor e produtor da série Mares Siderais
A série Mares Siderais é uma trilogia musical baseada na obra de ficção científica do autor “Nesses Mares Siderais”. A trama aborda o amor interplanetário entre um astronauta brasileiro e uma sereia cósmica do espaço profundo no ano de 2092.



Jornal São Tomé Online - Antes de falarmos da trilogia musical Mares Siderais, da sua produtora Pepe Arte Viva, fale um pouco sobre suas produções anteriores em vídeo.
Pepe Chaves – Desde a infância me interessei por produções em vídeo, TV e cinema. Mas só a partir de 2008 comecei a criar vídeos e torná-los públicos. Comecei produzindo videoclipes da minha antiga banda, Elfos, e também de trabalhos musicais meus com alguns amigos. Dois anos depois, lancei o DVD duplo da banda, intitulado Elfos Gerais 2010, reunindo gravações dos anos 80 e 90. Segui produzindo vários documentários independentes, inclusive como parte de uma pesquisa etnológica que realizei durante anos, visitando muros antigos perdidos nas matas da região onde nasci, em Minas Gerais. Em 2012, produzi o documentário Coração Guarani, com trilha sonora original e em parceria com os amigos Sandra Mara e Wilner Forini, mostrando um pouco da vida de uma tribo indígena do litoral paulista. Em 2018, esse trabalho foi traduzido para o alemão e exibido pelo Museu da Cultura Popular de Frankfurt, na Alemanha. Nos anos seguintes, trabalhei produzindo documentários diversos, videoclipes e outros trabalhos de caráter documental para terceiros. Há várias produções em vídeo assinadas por mim, documentais e artísticas, disponíveis com acesso livre no canal TV Fanzine no YouTube.
Jornal São Tomé Online - Em que essa trilogia se difere de suas produções anteriores?
Pepe Chaves – Em vários sentidos, especialmente por ser o primeiro trabalho em vídeo criado e produzido por mim utilizando recursos de Inteligência Artificial (IA). Após criar e caracterizar os personagens e as paisagens, utilizei ferramentas de IA para fazer toda a animação de Mares Siderais. Isso foi uma grande novidade para mim. Também se difere dos demais trabalhos por ser uma história de ficção científica totalmente criada por mim, no formato de filme. Na verdade, meu sonho seria um dia transformá-la em um longa-metragem, incluindo outras passagens do meu romance "Nesses Mares Siderais".
Jornal São Tomé Online - Fale da trama de Mares Siderais e do conceito de "Song Story".
Pepe Chaves – Song Story é uma canção que conta uma história. Neste caso, o amor interplanetário do astronauta Jos e da sereia cósmica dos Mares Siderais, Lumiara. A história se passa na década de 2090, portanto, daqui a cerca de 70 anos. Após receber um pedido de socorro universal, Jos, astronauta da Agência Espacial Brasileira (AEB), é enviado para cumprir uma missão nos Mares Siderais, uma região longínqua e pouco conhecida da Via Láctea. Quando chega lá, no entanto, encontra a única remanescente de uma evoluída e antiga civilização de tritões e sereias cósmicas. Lumiara foi a única sobrevivente de um cataclismo espacial que dizimou sua espécie. Criada sozinha naqueles solitários rincões espaciais, viveu entre a fauna e a flora dos Mares Siderais, até que Jos aparece e tudo muda para ambos.

Jornal São Tomé Online - Conte-nos sobre a composição de "Mares Siderais I", do primeiro episódio, e de "O amor não tem limites", que você compôs com Luana Faddlei para o episódio seguinte.
Pepe Chaves – Mares Siderais I foi composta em minha cidade natal, Itaúna-MG, em 2017, por mim, por Luana Faddlei e por meu saudoso parceiro musical Fernando Chaves. A gravação final em estúdio foi feita em Itaúna, teve a participação do músico e produtor belo-horizontino Noca Tourino, que ficou a cargo dos arranjos de cordas, toda a programação instrumental e técnica de áudio no estúdio. Os arranjos instrumentais e de voz foram meus e de Fernando Chaves. Tudo começou com o violão de Luana, autora da música: quando ela dedilhou alguns acordes, Fernando imediatamente começou a colocar letra na música dela. Depois, continuei a letra seguindo a mesma temática cósmica iniciada por ele e dentro do amor de um astronauta e uma sereia, conforme o meu conto "Nesses Mares Siderais". Já em Mares Siderais II, estando eu em São Tomé das Letras e Luana em São Paulo, compusemos à distância essa canção O amor não tem limites. É um pano de fundo para o improvável amor entre um astronauta e uma sereia de mundos diferentes. Fala de apego, amor, sensualidade e fidelidade, pregando que nem o tempo nem o espaço podem separar duas almas que se amam de verdade. É uma história intensa, de risos, lágrimas e emoções variadas. Nesse segundo episódio, contamos com as essenciais colaborações dos músicos Beto Campos, meu parceiro musical antigo de Itaúna, cuja canção instrumental “Os Gatos”, faz a abertura do segundo episódio; e também de Duh Roots, nosso amigo de São Paulo, músico e produtor da Lifedub Products, que trabalhou na produção instrumental.
Jornal São Tomé Online - Como tem sido para você, que mora em Minas, trabalhar com a musicista Luana Faddlei, que reside em São Paulo, e ainda assim criar belas parcerias como Mares Siderais I e II?
Pepe Chaves – A Luana é uma pessoa incrível, de um grande coração, paciência e generosidade. Além de uma grande compositora, cantora e instrumentista. Tudo isso facilita muito. O amor não tem limites é nossa terceira parceria em quase 10 anos, além de Mares Siderais I e Mãe do Ouro Chegou, esta última composta em julho deste ano. A distância não tem impedido nosso trabalho. Nós nos apresentamos em um encontro ufológico em Luminárias-MG neste mês de setembro e temos trabalhado muito à distância para a conclusão do áudio de O amor não tem limites, que será lançado no próximo dia 30 de setembro pela TV Fanzine no YouTube. Sem a participação e a colaboração da Luana nesse projeto, dificilmente teríamos conseguido montar essa trilogia com a qualidade e a originalidade que almejamos desde o início.
Jornal São Tomé Online - Como tem sido sua experiência com IA generativa para animar os personagens?
Pepe Chaves – Tem sido uma experiência gratificante e um interessante aprendizado prático. Criar personagens, dar a eles caráter, personalidade e características próprias é algo sublime, a meu ver. Transpor para uma máquina seus sentimentos, expressões faciais, corporais e comportamentos distintos através desses personagens é algo incrível, que mais parece magia — diria eu, se visse isso na minha infância! A IA nos legou uma tecnologia maravilhosa nessa área da animação e da composição de histórias fictícias. Enfim, tudo o que você assiste neste trabalho saiu, antes de tudo, de dentro de mim, antes de passar pela máquina e chegar até você.

Jornal São Tomé Online - Qual foi sua inspiração para criar essa história cósmica, os personagens, o roteiro e a produção?
Pepe Chaves – Sempre fui apaixonado por ficção científica. Autores como Arthur C. Clarke, Isaac Asimov e Júlio Verne são os melhores para mim, desde a infância. Apesar da influência desses grandes nomes, procuro me safar de qualquer associação com algo que já foi feito antes. Toda a trama de Mares Siderais consta do meu romance cósmico Nesses Mares Siderais (ainda não publicado), que narra o encontro de um astronauta brasileiro e uma sereia cósmica no espaço profundo. Na trilogia musical, infelizmente, não conseguimos abordar a quantidade de detalhes do livro, mas conseguimos colocar na música o cerne da questão: um inédito caso de amor extraplanetário.
Jornal São Tomé Online - Como foram criados os personagens principais?
Pepe Chaves – Jos é um jovem nascido em Itaúna-MG, formado em engenharia pela UFMG, em Belo Horizonte, que depois seguiu carreira como piloto e astronauta, formando-se no concorrido Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos-SP. Seu nome tem as três primeiras letras do meu nome verdadeiro, José. Ele é uma espécie de personificação minha no universo da ficção espacial. Ou seja, eu faria o que ele faz se estivesse lá. Já Lumiara, cujo nome vem de lume, brilho, luz, foi uma homenagem à parceira musical Luana, criando também uma outra “Lu” de luz, como ela [risos]. Há outros dois personagens que prefiro não citar agora para não dar spoilers. Mas a partir do episódio 2 surgirá na história uma serpente marinha mutante, chamada Serpa, que é uma figura muito simpática e interativa. Há também as Florboletas, que aparecem dançando em algumas cenas. São uma espécie de borboletas com cabeça de flor. As Florboletas foram criadas por mim quando eu tinha 17 anos e somente agora pude fazer sua versão digital, integrando-as ao conto. Não deixem de assistir ao episódio 2 para conhecer esses novos personagens.
Jornal São Tomé Online - E sobre a parte de vídeo: direção, fotografia, tomadas, ângulos e cortes?
Pepe Chaves – Foi um prazer trabalhar com isso. Todas as cenas, animações comportamentais, além das paisagens e da espaçonave Beija-Flor 1, nasceram primeiro na minha cabeça. Depois é que foram transpostas para a máquina, criando as cenas da trilogia. Quando utilizamos IA para esse tipo de criação, você é a câmera! Você precisa saber se comunicar bem com o agente da IA para que ele faça exatamente o que você deseja, nem mais, nem menos. Acertar algumas cenas como você idealizou pode ser um trabalho árduo, que exige tempo e várias gerações de imagens. Mas quando finalmente tudo se encaixa, vem aquela gostosa sensação de prazer e de dever cumprido.

Jornal São Tomé Online - Você assina a autoria de todas as paisagens de Mares Siderais. De onde elas vieram?
Pepe Chaves – Cenários e paisagens são coisas que sempre gostei de trabalhar. Já pintei muitos quadros a óleo e com outras técnicas, murais, cenários, fiz desenhos e pinturas a vida toda. A paisagem em que aparece a serpente de fogo enrolada na árvore, soltando gases vermelhos e brasas ao lado de corais e cogumelos, por exemplo, foi desenvolvida para as citadas Florboletas, quando eu tinha 17 anos. A paisagem em que aparece a serpente Serpa também foi baseada em uma que fiz naquela mesma época. As demais paisagens planetárias, marítimas e espaciais, assim como o design da nave Beija-Flor 1, também foram ambientadas por mim mentalmente e depois transpostas para a IA.
Jornal São Tomé Online - Cada personagem tem uma identidade própria. Como foi criar essas características?
Pepe Chaves – Acho que é justamente essa parte, da direção de arte, que mais toca as pessoas. Cada riso mostrado ali, cada lágrima, cada alegria ou frustração, nasceu, antes, dentro de mim. Como falei, essa transposição sentimental homem-máquina é algo maravilhoso e mágico de se ver depois de concluída, sobretudo pelo trabalho que se faz para concluí-la. Como diretor de vídeo, procurei dar aos personagens, especialmente aos principais, características bem próprias de sorrir, chorar, nos gestos, manias, palavras, olhares e ações. E isso já está caracterizado neles, do primeiro ao último episódio. São coisas que vieram de mim, mas agora são eles, não mais eu.
Jornal São Tomé Online - A história cita a Embraer como fabricante da espaçonave Beija-Flor 1, além da AEB e do ITA, instituições reais. Por quê?
Pepe Chaves – Mesmo sendo ficção hoje, eu torço para que, se o Brasil lançar um dia no futuro uma nave tripulada, ela tenha sido criada e fabricada pela Embraer. Essa empresa genuinamente brasileira, criada no país de Santos Dumont, é uma pioneira da aviação mundial. Para mim, era de se esperar que, se em 2092 houver uma espaçonave brasileira, ela terá sido fabricada pela Embraer. A citação à AEB e ao ITA entra dentro do próprio contexto da astronáutica brasileira, que hoje ainda engatinha, mas que amanhã poderá dar longos saltos no espaço. A ideia de dar o nome de Beija-Flor 1 à nave veio por vários motivos: geralmente naves têm nomes de pássaros, e o beija-flor é um pássaro típico do nosso país e tem a principal cor da nossa bandeira. Além disso, torna-se sugestivo pensar que um astronauta foi lançado de nossa base espacial no Maranhão para beijar uma flor (sereia) nos distantes Mares Siderais...[risos]

Pergunta - Você pretende dar continuidade à série após finalizar a trilogia?
Pepe Chaves – Difícil dizer sim ou não. Vontade tenho, como disse, até mesmo de produzir um longa-metragem de Mares Siderais. Ou, quem sabe, continuar a série, pois este campo é vasto e outras histórias incríveis estão na minha obra Nesses Mares Siderais. Mas isso depende de uma série de fatores. Mesmo com a viabilização das ferramentas digitais atuais e da IA, que facilitam muita coisa, não é fácil produzir material de qualidade nesse campo sem investimento. Para prosseguir, o trabalho precisa se bancar e realmente não sei se iremos tomar esse caminho a partir de agora.
Jornal São Tomé Online - Fale dessa experiência de fazer uma produção de alta criatividade e qualidade musical e visual com orçamento "zero", usando apenas créditos gratuitos de empresas de IA.
Pepe Chaves – Esse tem sido o grande desafio. Mas gosto de desafios e me propus a encará-lo. As marcas d'água das empresas de IA que estampam alguns frames da nossa produção são o próprio atestado do custo zero. Desde a criação do design dos personagens, nave e paisagens, até a animação de todo esse material, tudo foi feito a partir de créditos gratuitos cedidos pelas geradoras de IA dentro de seus limites aos usuários. São créditos bem pequenos, que fazem cada segundo de animação valer ouro pela originalidade e qualidade final. Todas as empresas que cederam créditos são citadas na ficha técnica da produção. Os créditos cedidos por empresas como ChatGPT e Meta foram essenciais, mas mesmo assim há outros custos para montar o audiovisual, e o principal deles: o tempo gasto. Mesmo com o adiantamento proporcionado pelas IAs, ainda se gasta muito tempo para produzir animações. Para se ter uma ideia, Mares Siderais II tem 8 minutos de duração. Para cada segundo dele, foram gastas várias horas. Para cada minuto, foram vários dias de trabalho. Então, tudo isso é realmente “custoso”.

Pergunta - Você trabalha simultaneamente com jornalismo, música e produção de vídeo. Quais são seus planos para o futuro próximo?
Pepe Chaves – De certa forma, tudo o que faço está interligado. Prova disso é esta Song Story, onde criei o enredo, escrevi o roteiro, compus a música com Luana Faddlei e cantei com ela. Meus ofícios se conectam com naturalidade e precisão. Isso me dá uma boa noção de bom gosto, estética visual, musicalidade, escrita e expressão, elementos essenciais em todas as atividades que exerço como artista e produtor. Mas não há planos definidos para o meu futuro artístico, seja como músico ou produtor; há somente a ideia de continuar fazendo, dentro do possível, o que gosto e sempre fiz.
Jornal São Tomé Online - Deixe suas considerações finais.
Pepe Chaves – Peço a todos que assistam e compartilhem os episódios de Mares Siderais no canal TV Fanzine no YouTube e nas TVs associadas. Em breve, toda a trilogia estará lá. Sou eu quem agradece pela entrevista e por divulgarem mais uma produção independente nacional. Como tal, estamos remando contra todas as marés das grandes produtoras e, ainda assim, divulgando nossa brasilidade na música, nesse enredo espacial e na nossa verdadeira capacidade como uma nação consolidada pela democracia, ordem e justiça. Abraços siderais!

MARES SIDERAIS II
- A saga cósmica de MARES SIDERAIS com Jos & Lumiara no ano de 2096, prossegue nos céus distantes e está longe de se acabar...
- Assista ao trailer do episódio 2 e confira uma mostra do que está por vir. Lançamento dia 30/09, pelo canal TV Fanzine no YouTube.
- Assista ao episódio 1 completo - Mares Siderais - 1/3.
- Saiba mais sobre esta produção e seu conteúdo.
* Rafael Vidal é jornalista e diretor do Jornal São Tomé Online.
- Todas as imagens: Mares Siderais/Pepe Arte Viva/2026.





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