23/01/2023 3 anos atrás
Os agrotóxicos e o cultivo da batata em Minas
Cultivo que cobriu um distrito com calcário foi eliminado, após dois vereadores conhecerem o problema e Câmara Municipal ter criado lei, estabelecendo parâmetros para grandes plantações de batatas nas zonas rurais do município.



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Moradora narra sua experiência
Na sexta-feira, 20/01, nossa reportagem esteve conversando com Janaini Custódio, professora e supervisora escolar, moradora de Sobradinho de Minas, distrito de São Tomé das Letras. Ela relembrou que no segundo semestre de 2018, seu vizinho arrendou a terra para o plantio de batatas. E os primeiros problemas começaram a surgir quando a terra descia sem controle da plantação para o seu terreno.
“A lama desceu, invadiu todo o nosso quintal e entrou dentro da casa. Meu marido chegou a tirar 50 carrinhos de terra”, nos contou ela.
A plantação de batatas era gigantesca ao redor de Sobradinho. Conta Janaini que, quando reviravam o calcário na terra, a poeira branca chegou a cobrir todo o distrito.
As pulverizações utilizando agrotóxicos químicos começaram e sua criança (de quatro anos na época) começou a ter problemas respiratórios, também dor de garganta, tosse e febre. Tais sintomas surgiram fora da época comum ao aparecimento desses problemas. Ela afirma que foram ao pediatra e souberam que os problemas de saúde poderiam ter causa nas pulverizações.
Diante dos problemas, eles chegaram a procurar o responsável pela plantação. “Ligamos a ele [o arrendatário] para explicar. Falei que olhamos na internet e há um limite de pelo menos 50m da plantação à residência. E disse: então você vê se não consegue manter essa distância que o veneno está muito forte, está incomodando, chega a noite não conseguimos ficar em casa”, afirmou Janaini ao arrendatário.
Segundo ela, o arrendatário respondeu que, “Se fosse respeitar esses 50m não sobrava espaço para ele plantar. E que se eles [o casal] quisessem dar de volta todo o dinheiro que ele [arrendatário] já tinha gasto na plantação até aquele momento, ele não plantaria mais”.
Acrescentou ela que até a água de irrigação das batatas chegava a cair dentro do seu quintal. Esta água de irrigação não estava com veneno, mas após a aplicação fresca esta chegava a arrastar o veneno depositado nas plantas e no solo para o ribeirão, do qual sua família consumia a água.
Correndo atrás dos seus direitos
De acordo com Janaini, “Então a gente viu que não dava mais para ter uma política de boa vizinhança; não dava mais para ir na boa fé do cara. Então procurei a Aninha [Ana Sigaud] do movimento Todos Pela Água e ela me passou o contato do vereador Adriano Jiló”.
Segundo ela, os então vereadores Adriano Jiló e Alex se sensibilizaram com a causa e foram conversar com os moradores que assim, expuseram o problema ao Legislativo municipal. A água que descia da plantação estava chegando no ribeirão, afetando assim, a captação de água da família e também a captação de água pela COPASA em Sobradinho, além de infiltrar também no lençol freático local.
Eles redigiram um oficio e chegaram a coletar, com ajuda de apoiadores, assinaturas de 200 pessoas no distrito que possui uma média de 350 habitantes. Levou ofício, fotos e assinaturas à Câmara Municipal.
Fizeram várias denúncias sobre a plantação em diferentes órgãos de fiscalização: na Delegacia do Meio Ambiente, no Ministério Público e, inclusive, no Ministério do Trabalho, pois o trator que estava pulverizando não tinha cabine e o operador estava com roupa normal, sem utilizar EPI’s para lidar com agrotóxicos.
Além dos problemas próximos à sua residência tiveram também problemas com a estrada que dá acesso ao distrito. Próximo ao trevo do João Cota a prefeitura teve que raspar a lama que desceu da plantação e formou uma parede de mais de um metro e meio nos acostados da estrada, além da lama que desceu com venenos agrotóxicos para o riacho.
Janaini aproveitou uma aparição pública na escola de Sobradinho de Minas para conversar com o prefeito sobre o problema que estava ocorrendo: “O pessoal vem plantar e vai embora, não deixa imposto, nem emprego para o pessoal da cidade, porque traziam de outra cidade. Vinha ônibus cheio de gente para cá na época da colheita e trazia gente de outro lugar, nem serviço davam. Além disso, iam embora e deixavam um monte de lixo aqui na frente, tudo eu fotografei e coloquei no ofício”, afirmou ela ao prefeito.
Criação da lei municipal das batatas
Na época, os vereadores Adriano Jiló e Alex representaram a causa dos moradores junto à Câmara que, em dezembro de 2019, resultou na criação da lei municipal nº 1.505/2019, que acabou por tornar o cultivo de batatas inviável na região. Pois, após o estabelecimento da lei municipal pela Câmara, a cultura da batata, que exige muita água (sendo irrigada duas vezes ao dia), deveria estar agora situada a uma distância mínima de 200m dos cursos d’água. E por isso, se tornou inviável ao plantador.
Uma vitória para quem esteve morando a menos de 10m da plantação, protegida somente por uma barreira de árvores de 5m que não parava as pulverizações e estavam, muito provavelmente, comprometendo a saúde daquela família.
Luta pela ampliação da lei
Porém, mesmo com o fim da cultura da batata em nosso município, as reclamações por pulverizações de agrotóxicos continuam. Agora em 2023, moradores dos bairros rurais da Lagoa e do Areado têm se queixado da proximidade com as plantações de soja, além da lama contaminada descendo para os córregos, de onde utilizam suas águas e das enxurradas que se formam após a plantação.
O problema em si só estará totalmente resoluto quando as limitações aplicadas à batata se apliquem a todas as culturas com uso de agrotóxicos. Caso contrário, os problemas em si – como as pulverizações com agrotóxicos próximas às residências – voltará a ocorrer sempre em uma nova cultura diferente.
* Rafael Vidal é membro do Movimento Todos Pela Água / STL-MG e diretor do Jornal São Tomé Online.
- Foto: Divulgação.
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- Produção: Pepe Chaves.





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