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17/07/2026 2 mêses atrás

Crônicas da Montanha - trilogia: O imaginário Estado da Mantiqueira - um estado de espírito – parte 1

Os estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro se encontram numa tríplice divisa, onde suas populações compartilham as mesmas características. A mais comum delas é que, estas três unidades federativas da União dividem entre si a formosa e rica Serra da Mantiqueira.

Por Pepe Chaves

Esta é a tríplice divisa entre Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, formando o imaginário Estado da Mantiqueira, com sua cultura, geografia e demais características em comum.

Partes das regiões Sul de Minas Gerais, Leste de São Paulo e Oeste do Rio de Janeiro se confluem na Serra Mantiqueira, que se estende por vários municípios destes três estados brasileiros. Desta maneira, há mapas que não existem no papel, mas vivem na memória das pessoas. O fictício Estado da Mantiqueira é um deles e aqui colocaremos um pouco do resultado desta união que se forma numa região geográfica única. 

Nenhum geógrafo desenhou oficialmente o Estado da Mantiqueira. Nenhum governador jamais tomou posse em sua capital. Seus limites não aparecem nos livros escolares nem nos documentos do IBGE. Ainda assim, ele existe. Existe na neblina que cobre os vales ao amanhecer, no cheiro do fogão a lenha que escapa das cozinhas antigas e no sotaque suave que mistura um pouco de Minas, um pouco de São Paulo e um pouco do Rio de Janeiro.

O Estado da Mantiqueira começa onde as montanhas resolvem conversar entre si. Seu território acompanha as serras, os campos de altitude, as araucárias solitárias, as cachoeiras e grutas escondidas, além das estradas sinuosas que parecem desenhadas pela própria natureza. Nele, cidades como São Bento do Sapucaí (SP), Campos do Jordão (SP), Queluz (SP), Itamonte (MG), Passa Quatro (MG), Cruzília (MG), Aiuruoca (MG), Visconde de Mauá (RJ), Resende (RJ), Itatiaia (RJ), e tantas outras deixariam de pertencer a estados diferentes para se tornarem vizinhas em uma mesma mátria serrana.

A capital? Talvez nenhuma. Talvez todas. Talvez a capital do Estado da Mantiqueira seja o próprio horizonte, visto do alto de uma pedra qualquer, onde o viajante enxerga sucessivas ondas de montanhas desaparecendo no azul distante.

Os habitantes desse estado imaginário possuem hábitos curiosamente parecidos. Gostam do café forte servido sem pressa. Conversam olhando nos olhos. Conhecem o valor de uma nascente limpa. Respeitam a chuva fina que chega silenciosamente pelas encostas. Aprenderam, ao longo dos séculos, a viver em diálogo com as montanhas.

Sua economia seria movida por riquezas pouco valorizadas pelas grandes metrópoles: o queijo artesanal, a truta dos rios frios, a produção de cafés especiais, os pequenos alambiques, o artesanato, o turismo ecológico e rural, além da hospitalidade que transforma visitantes em amigos.

Sua bandeira talvez fosse verde como as matas, azul como os céus de inverno e branca como a névoa que cobre os vales nas madrugadas. Em seu brasão não haveria leões nem águias. Haveria uma araucária, uma nascente cristalina e o perfil de uma montanha.

Os habitantes da Mantiqueira não se identificariam apenas por um documento. Reconhecer-se-iam por uma forma de enxergar o mundo. Sabem que as serras guardam histórias. Que as pedras possuem nomes. Que cada cachoeira tem uma lenda. Que a natureza não é apenas paisagem, mas companheira de caminhada.

Nas escolas desse estado imaginário, as crianças aprenderiam que os rios que abastecem milhões de brasileiros nascem ali, entre as montanhas. Aprenderiam que a floresta é uma herança mais valiosa do que qualquer tesouro escondido. E que preservar uma nascente é também preservar o futuro.

À noite, quando o frio desce pelas encostas, o Estado da Mantiqueira revela sua verdadeira capital. Ela surge em cada varanda iluminada, em cada fogueira acesa, em cada roda de conversa onde antigos causos continuam sendo contados. É uma capital sem prédios oficiais, sem palácios e sem trânsito. Uma capital construída de memórias.

Desta maneira, o Estado da Mantiqueira não pertence a nenhuma das três unidades federativas que o compõem, mas se edifica pela somatória de suas paisagens, culturas e tradições em comum. Talvez o Estado da Mantiqueira jamais venha a existir nos mapas. Mas quem percorre suas estradas, observa seus vales e escuta o silêncio de suas montanhas sabe que algumas nações não precisam de fronteiras para serem reais. Basta que existam no coração daqueles que as habitam.

- Em breve, nossas “Crônicas da Montanha” trará a segunda parte de “O imaginário Estado da Mantiqueira - um estado de espírito”. Aguarde a evolução dessa ideia que cria uma unidade federativa brasileira imaginária, mas bem real pelas suas próprias características geo-culturais.

* Pepe Chaves é editor da ZINESFERA - Rede Mineira de Portais Integrados e do Jornal São Tomé Online.

- Imagem: Editoria JSTO-IA.

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